sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Estreias 11 Fev'16: Room, Deadpool, El botón de Nácar, Nostalgia de la Luz, Lisbon Revisited, How To Be Single; Un peau, beaucoup, aveuglément!; Fifty Shades of Black, Obra completa de Andrei Tarkovsky, All Roads Lead to Rome e The Choice

Dia 11 de Fevereiro, pode contar com as seguintes estreias numa sala de cinema perto de si:

Destaques:

  Quarto (Room)
Ano: 2015
Realização: 
Argumento: 
Género: Drama
Elenco: Brie Larson, Jacob Tremblay
Com apenas cinco anos de idade, Jack não faz ideia de que o quarto onde sempre viveu é o lugar onde a mãe tem sido mantida prisioneira durante os últimos sete anos. Apesar de a criança ser fruto de uma violação, ele tem sido a força que tem mantido a rapariga viva. Com esforço, ela tenta, de todas as formas, proporcionar-lhe uma vida “normal”, fazendo o pequeno acreditar que aquele lugar é o mundo inteiro e que o que vêem através do ecrã da televisão nada mais é do que uma fantasia. Quando o captor os informa de que foi despedido e que em breve deixará de poder trazer-lhes mantimentos, a mãe entra em pânico. Decidida a encontrar um modo de garantir a sobrevivência de Jack, arranja uma forma de ele escapar. E é assim que ele informa a polícia e ela é encontrada e libertada. Porém, quando mãe e filho se encontram fora daquele espaço, vão perceber que, de tão habituados à clausura, a liberdade pode ser quase tão aterradora como a total ausência dela… Com realização de Lenny Abrahamson segundo um argumento de Emma Donoghue, um filme dramático sobre sobrevivência e capacidade de adaptação que se baseia no “best-seller” homónimo de Emma Donoghue.

Outras sugestões:

Deadpool (Deadpool)

Ano: 2016
Realização:
Argumento: Rhett Reese, Paul Wernick
Género: Acção
Elenco: , ,
Quando Wade Wilson (Ryan Reynolds), ex-militar e mercenário, é diagnosticado com uma forma agressiva de cancro, percebe que os seus dias estão contados. É então que é desafiado a voluntariar-se para uma experiência científica arriscada que causa uma alteração genética no seu organismo mas que lhe promete a cura para a doença. Sem alternativa, aceita. Depois da intervenção, ele “regressa à vida” como Deadpool, um anti-herói indestrutível com superpoderes de cicatrização e um sentido de humor negro e algo retorcido. Agora, para além de tentar combater o mal e as injustiças sociais, ele só quer vingar-se do homem que destruiu a sua vida. Com argumento de Rhett Reese e Paul Wernick e realização de Tim Millers, que aqui se estreia na realização, um filme de acção e aventura sobre Deadpool, uma das personagens do universo Marvel, criada, em 1991, por Fabian Nicieza e Rob Liefeld. Para além de Reynolds no papel principal, o elenco conta também com Morena Baccarin, Ed Skrein, T. J. Miller, Gina Carano, Brianna Hildebrand, Stefan Kapicic ou Leslie Uggams, entre outros.


O Botão de Nácar (El botón de Nácar)

Ano: 2015
Realização:
Género: Documentário
Cinco anos depois da estreia de “Nostalgia da Luz”, um documentário dobre o deserto de Atacama numa associação à história recente do Chile, o realizador Patricio Guzmán regressa com “O Botão de Nácar”. Com 2670 milhas de costa e paisagens espectaculares, o Chile contém o maior arquipélago do planeta Terra. Agora, voltando a usar a geografia chilena como pano de fundo, este filme fala-nos da importância dos oceanos, onde se ouvem as vozes dos primeiros indígenas da Patagónia, dos primeiros colonos ingleses ou dos prisioneiros políticos da ditadura de Augusto Pinochet (que durou quase duas décadas, entre 1973 e 1990).

Nostalgia da Luz (Nostalgia de la Luz)

Ano: 2010
Realização:
Género: Documentário
O deserto de Atacama localiza-se na região norte do Chile até à fronteira com o Peru. A 3000 metros de altitude e com cerca de 1000 quilómetros de extensão, é considerado o deserto mais alto e mais árido do Mundo, com níveis de precipitação próximos do zero. Por causa disso, o solo de Atacama é comparado a Marte. As temperaturas variam entre os 0º C à noite os 40º C durante o dia. Devido à sua altitude, nuvens quase inexistentes, ar seco e falta de poluição luminosa, este é um dos melhores lugares do Mundo para a observação astronómica e é lá que muitos cientistas procuram vida extraterrestre e tentam perceber os enigmas do Universo. Mas também é no deserto de Atacama que algumas mulheres procuram os restos mortais de familiares perdidos: exploradores, mineiros, índios ou prisioneiros políticos da ditadura de Pinochet… Estreado em 2010 no Festival de Cinema de Cannes, um documentário que conta com realização, argumento e narração do chileno Patricio Guzmán.

Lisbon Revisited (Lisbon Revisited)
Ano: 2014
Realização:
Género: Documentário
Prosseguindo com o 3D que começou a explorar com Cine-Sapiens, a sua contribuição para o projecto colectivo de Guimarães 3x3D, "Lisbon Revisited" é um filme-colagem à volta da obra de Fernando Pessoa. Como o cineasta explicou na introdução à primeira das duas projecções do filme em Locarno, Pessoa é para ele o poeta que melhor define o século XX “mas também os nossos dias”, de uma contemporaneidade omnipresente. A partir de uma selecção de escritos dos seus vários heterónimos (e de uma das cartas de Ofélia Queirós), Pêra constrói uma absorvente e inquietante paisagem sonora de vozes, fragmentos de texto, música pré-existente (Berlioz, Schumann, Mahler) e construções abstractas, o todo ilustrado por imagens de Lisboa manipuladas ao extremo. 

Como Ser Solteira (How to Be Single)
Ano: 2016
Género: Comédia
Depois de ser abandonada pelo namorado, a pobre Alice sente-se incapaz de enfrentar o mundo sem a sua “outra metade”. É então que Robin, uma das suas melhores amigas, decide ensiná-la a “ser solteira” e a sobreviver a uma saída nocturna em alguns dos mais badalados bares e discotecas de Nova Iorque. A cidade é um desafio para todo o tipo de pessoas, estejam elas em busca de amor, sexo ou simples diversão. Para a ajudar nesta nova fase da sua vida, Alice contará também com alguns dos corações mais solitários de todo o território norte-americano… Uma comédia realizada por Christian Ditter (“Deixa o Amor Entrar”) que se inspira no romance com o mesmo nome, escrito em 2008, por Liz Tuccillo. Dakota Johnson, Rebel Wilson, Alison Brie e Leslie Mann dão vida às personagens.

Um Encontro às Cegas (Un peau, beaucoup, aveuglément!)
Ano: 2015
Género: Comédia
Ele é obcecado pela ordem e apenas se consegue concentrar no silêncio absoluto. Ela é uma rapariga tímida que se expressa através da música e que ensaia ininterruptamente para uma audição de um concurso musical. Um dia ela arrenda o apartamento ao lado do dele. Para tornar tudo mais complexo, entre os dois apartamentos existe uma parede com um grave problema de insonorização. Ele precisa do silêncio para trabalhar. Ela, por seu lado, não pode deixar de tocar. Entre os dois vizinhos instala-se uma guerra onde cada um quer impor os seus direitos. Mas sem se aperceberem – e mesmo sem nunca se terem chegado a ver –, os dois criam laços e começam a comunicar, cada um do seu lado da parede. Do confronto surge o entendimento… e assim nasce uma história de amor. Uma comédia escrita e realizada pelo actor francês Clovis Cornillac, que também protagoniza em parceria com Mélanie Bernier.

As Cinquenta Sombras de Black (Fifty Shades of Black)
Ano: 2015
Realização:
Argumento: ,
Género: Comédia
Hannah (Kali Hawk) é uma rapariga tímida que sempre teve dificuldades em relacionar-se com o sexo oposto. Certo dia entrevista Christian (Marlon Wayans), um dos empresários mais ricos e promissores do momento. Nesse encontro, ela descobre um homem fascinante que, para sua surpresa, se mostra interessado em conhecê-la mais intimamente. Nasce assim uma complexa relação erótica e emocional entre ambos: Hannah vê-se envolvida nos prazeres do sadomasoquismo, tornando-se o objecto de desejo de Christian. Realizado por Michael Tiddes (“Inactividade Paranormal”), segundo um argumento de Marlon Wayans e Rick Alvarez, uma comédia que, tal como o nome indica, é uma paródia ao filme “As Cinquenta Sombras de Grey” que, por sua vez, adaptou ao grande ecrã o primeiro volume da trilogia publicada, em 2011 e 2012, pela autora britânica E.L. James e que se tornou num fenómeno de vendas no Mundo inteiro.

Obra completa de Andrei Tarkovsky (Obra completa de Andrei Tarkovsky)
Realização:
A política de retrospectivas e reposições da Leopardo Filmes vira-se para Leste, e para a grande tradição do cinema soviético. É um programa em várias fases, que concilia autores consagrados e há décadas inscritos nos manuais de história do cinema com outros que, para o público em geral, farão figura de autênticas revelações. A primeira começa em Fevereiro com um autor-ícone do cinema soviético dos anos 60 aos anos 80, que filmou o "autor de ícones" Andrei Rubliov (1966) numa das suas obras mais lendárias: Andrei Tarkovsky. Houve um período em que ele era a máxima expressão, fora de portas, do cinema de autor produzido na URSS, com os seus filmes de sentido esguio, fortemente contemplativos e enigmáticos, por vezes em tangente com os universos da ficção científica. A partir de 11 de Fevereiro o Nimas propõe um regresso à sua obra, com todas as longas-metragens de ficção do autor, de A Infância de Ivan (1962), Solaris (1972), O Espelho (1975), Stalker (1979), Nostalgia (1983), ao derradeiro O Sacrifício, feito na Suécia em 1986 (Tarkovsky auto-exilara-se em 1984), fecho de uma obra interrompida pela morte prematura do cineasta nesse mesmo ano de 1986, com 54 anos.

Amor em Roma (All Roads Lead to Rome)
Ano: 2015
Realização:
Argumento: Josh Appignanesi, Cindy Myers
Género: Comédia
De forma a tentar uma reaproximação com Summer, a sua problemática filha adolescente, Maggie decide fazer uma viagem a Itália, o lugar onde vinte anos antes passou os melhores meses da sua vida. Apesar do mau humor e constante espírito de contradição de Summer, Maggie sente que este é o momento de viragem de que tanto precisam. É com este estado de espírito que ela reencontra Luca, um italiano por quem, duas décadas antes, estivera profundamente apaixonada. Porém, apesar da óbvia atracção que ainda os une, aquela reaproximação vai ser dificultada pelas constantes tentativas de fuga de Summer, que tudo fará para encontrar o caminho até ao aeroporto e poder voltar para Nova Iorque. Com realização de Ella Lemhagen e argumento de Josh Appignanesi, uma comédia romântica sobre encontros e desencontros que conta com Sarah Jessica Parker, Raoul Bova, Rosie Day, Paz Vega e Claudia Cardinale nos papéis principais.

Uma Escolha por Amor (The Choice)
Ano: 2016
Realização:
Argumento:
Género: Drama, Romance
Travis Parker (Benjamin Walker) é jovem, feliz e descomprometido. Apesar de apaixonado pela vida, sempre evitou o compromisso, por considerar que isso limitaria a sua liberdade de movimentos. Ele habituou-se a viver rodeado de amigos e isso tem sido suficiente para evitar qualquer sentimento de vazio ou solidão. Mas tudo muda quando conhece Gabby Holland (Teresa Palmer), uma jovem cheia de vida que aluga a casa ao lado da sua. Apesar de Gabby ser comprometida, entre eles nasce uma cumplicidade que, com o tempo, se intensifica. Até que ambos se apercebem de que aquela amizade cada vez mais se assemelha ao verdadeiro amor… Realizado por Ross Katz (“Adult Beginners”), uma comédia romântica que é a 11.ª adaptação cinematográfica de obras de Nicholas Sparks, um dos mais prolíficos escritores norte-americanos da actualidade.
Sinopses: Cinecartaz Público

"Brooklyn": Exílio faz o coração crescer (e dividir-se)

Muitas vezes, enquanto visualizamos um filme, damos por nós atraídos como que magicamente pela história. Alguns filmes exigem toda a nossa atenção, outros hipnotizam os nossos sentidos, deixando-nos perdidos pela exuberância e técnica do cinema dito clássico.

O filme de John Crowley tem a sua quota-parte de sequências emocionalmente manipuladoras, principalmente porque a banda sonora é frequentemente arrogante e excessiva, sendo as suas nuances e perspectivas sobre o amor jovem e como uma pessoa consegue evaporar os medos e incertezas de alguém meramente peculiares. Tudo isto é consideravelmente poderoso. As cenas entre os dois protagonistas são inegavelmente românticas e nada exageradas ou representadas de forma pouco credível, como se tratassem de uma adaptação cinematográfica de um qualquer romance de Nicholas Sparks. Os dois exalam uma química bastante natural, que é impulsionada pela sua inocência, pelos seus sorrisos claramente autênticos e pelo carinho que nutrem entre si.

O argumentista Nick Hornby, autor dos romances About a Boy (2000) e High Fidelity (2000), desenvolve uma história que segue a linha tradicional de outras cautelosamente optimistas como Avalon (1990) e In America (2002). Estes filmes não são dramas, comédias ou romances, mas antes recaem num agradável lugar entre todos esses géneros. Como acontece em ambos, aqui o argumento também cria um mundo cheio de personagens texturizadas que ajudam a construir uma sensação de lugar e tempo. O argumentista adapta o romance de Colm Tóibín, articulando lindamente os sentimentos de alienação, perda, amor e esperança.

A protagonista não é apenas uma menina a ser cortejada, mas uma mulher que busca incessantemente pelo seu devido lugar, entre a América e a Irlanda. Simpatizamos com ela facilmente, porque ela demonstra uma interminável empatia pelo próximo. A mudança de humor e perspectiva é subtilmente espelhada peça câmara de Yves Bélanger. Durante as cenas de abertura em Enniscorthy, os seus movimentos são cautelosos, constrangidos, como se relutantes em chamar a atenção para si. Uma vez em Nova Iorque, os movimentos tornam-se mais soltos, surge uma sensação de liberdade e facilidade, mesmo por entre as ruas mais movimentadas ou por entre a azáfama de Coney Island. Quando regressa ao ponto de partida, parte dessa liberdade transatlântica viaja com ela. Esta transformação é ainda mais instigada pela textura da iluminação, que aos poucos passa de moderada a expansiva.

Ao mesmo tempo, o filme intrinsecamente americano e incrivelmente multi-cultural, apresenta, de forma complexa e emocional, a experiência daqueles que optaram por imigrar. O facto de recorrer à perspectiva de uma vibrante jovem irlandesa é o que faz com que a história seja excelente. É um triângulo amoroso, sem dúvida, mas a batalha interior da protagonista é o factor mais interessante. Yves Bélanger faz Brooklyn de 1950 emocionante e estranha, de início, e romântica à medida que a jornada de auto-descoberta da personagem principal avança. As imagens da Irlanda são espaçosas, abertas e caseiras.

Saoirse Ronan, que desde a sua estreia em Atonement (2007) tem vacilado na sua escolha de papéis, apresenta-nos uma performance subtil e discreta enquanto Ellis, uma jovem mulher que largamente instigada pela sua irmã mais velha deixa para trás a claustrofobia fofoqueira de uma cidade provincial da Irlanda e ruma em direcção ao burburinho impessoal de Nova Iorque.


O tempo, início dos anos 50, não é menos importante que o lugar. John Crowley recria ambos sem falhas, com uma desconcertante atenção aos detalhes, tanto no que diz respeito ao guarda- roupa, como ao diálogo. Aqui a distância torna-se mais importante que a conformidade social.

O momento mais comovente do filme surge mais cedo que o habitual. No primeiro Natal longe de casa, a protagonista ajuda o padre a servir um almoço para um grupo de idosos expatriados irlandeses que numa busca pelo sonho americano acabaram por cair em desgraça. Por entre o calor e o álcool que descongela a sua desolação, um dos homens presentes levanta-se e decide cantar em Erse, uma língua gaélica. Na sua voz encontra-se contida toda a doçura, dor e mágoa subjacente ao exílio.

Brooklyn é actual pois as questões que levanta sobre imigração e tolerância, no que diz respeito à diversidade racial, religiosa e étnica, continuam a ser as mesmas mais de cinquenta anos depois. Não apresenta nada de revolucionário, no entanto, a sua restrição com uma pitada tensão dramática, faz com que as suas diversas e complexas camadas emocionais se tornem intrigantes. O filme é uma bonita ilustração da experiência de um imigrante em meados do século XX, centrada num comovente romance.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Passatempo 13 Horas

"Spotlight": Sexo, mentiras e catolicismo

Por Miguel Stichini.

Para um jornalista há uma linha que separa o acto de reportar uma história que poucas pessoas conhecem e o de dar a conhecer dimensões demasiadamente horríveis de uma história que muitos conhecem, mas que são incapazes de assumir. Acreditar em algo não é fácil. Por vezes, a nossa crença enfrenta uma perseguição injusta e por vezes é testada. O mundo tende a alinhar-se rapidamente em frente aos crentes com pedras na mão, com completa noção de quem irá atirar a primeira pedra. A história universal encontra-se repleta de desafios para os devotos. É muito difícil de se preparar para a dor que poderá provir de dentro de uma instituição. Mais difícil ainda é prepararmo-nos para uma luta após aprendermos que a nossa comunidade nos deixou para trás.

Thomas McCarthy e Josh Singer desenvolvem um retrato disso mesmo, de forma intrincado para assegurar que não seja visto como um ataque flagrante à Igreja Católica. É inegável que a sua presença em Boston, encobrindo um conjunto de crimes graves, roça a máfia local. No entanto, ambos fazem-no enquanto recusam explorar a narrativa que gratuitamente fazem da Igreja um vilão. O verdadeiro vilão deste argumento é a ideia de sigilo institucional.

Firmemente, os cineastas concentram-se na investigação da equipa Spotlight do jornal Boston Globe e as provações emocionais que esta enfrenta. Trata-se de um filme de elenco, onde todos os envolvidos se aproximam do material da melhor forma possível e sem perder um pingo de intenção astuta pelo caminho. Em vez de se perder por entre meditações sobre as virtudes do jornalismo de tempos antigos, celebra pessoas que mudaram o mundo, dia após dia, com trabalho, suor e lágrimas.

Fascinante, e potencialmente controversa, a obra de Thomas McCarthy está entre as melhores representações do jornalismo americano no grande ecrã. Ela merece ser mencionada no mesmo fôlego que Zodiac (2007), de David FincherThe Insider (1999), de Michael Mann e All the President's Men (1976), de Alan J. Pakula, enquanto melhores exemplos do género. Contém personagens ricamente e subtilmente detalhadas que investigam algo bem maior que os seus egos, recorrendo à sua fé na verdade e na justiça para superar o medo, abuso e complacência para com um dos mais horríveis crimes alguma vez cometidos. Ninguém se encontra acima da equipa ou da história, nem o elenco, nem os cineastas.


O argumento dá-se ao luxo de abordar um tema que todos nós já vimos e ouvimos inúmeras vezes e ainda assim conseguir aguçar o nosso investimento emocional. Detalhe após detalhes, tudo nos é apresentado. Qualquer pessoa que tenha o menor interesse nesta história deixar-se-á levar às memórias sobre os vários escândalos da Igreja Católica ao longo dos anos, a quão profundo esse buraco é. Quando uma das personagens finalmente explode perante tais atrocidades e o quão impregnadas estão na nossa sociedade, nós estamos tão irritados, frustrados, tristes como ela. O filme leva-nos pela mão, passo a passo, através da agonizante história. Não há nada de novo, mas ainda assim encontra uma forma de nos deixar com um nó no estômago.

Será porque nos apercebemos que grande parte da verdade se encontra encoberta por privilégios? Confidencialidade entre cliente e advogado, uma instituição que se protege a si mesma. Serão actos postos em prática para evitar a acusação, tornando difícil processar aqueles que realmente merecem a totalidade da acusação? Como se os padres ao saírem do confessionário olhassem para nós, relembrando-nos que há segredos que não podem ser partilhados.

Tudo isto leva-nos a um sentimento de remorso, pois nós sabíamos, todos nós sabíamos e nunca dissemos ou fizemos nada. Em vez disso, encolhemos os ombros, negamos e recuámos. Mesmo que não seja na nossa religião, as dezenas de actos hediondos que ocorreram afectaram pessoas não tão distantes de nós. Fica então a questão: teremos nós colocado em causa e na corda bamba o jornalismo investigativo? Os acontecimentos desta história têm catorze anos, mas podiam ter quarenta considerando a forma como o jornalismo em papel mudou. Nos dias de hoje, pessoas são julgadas e condenadas em menos de 160 caracteres, antes mesmo de qualquer facto ser conhecido.

Michael Keaton atinge novamente o seu expoente máximo pelo seu humanista retrato de Walter Robinson, amplamente porque a sua personagem, a contrário de Riggen Thomson em Birdman, nunca é demasiadamente dramático ou surge enquanto peixe fora de água. Enquanto isso, Mark Ruffalo faz um excelente trabalho enquanto um jovem jornalista, que foge ao cliché do repórter presunçoso ou engraçadinho que genericamente é retratado em Hollywood. Rachel McAdams presenteia-nos com um dos seus melhores e convincentes trabalhos da sua carreira. O mesmo se pode dizer de Brian d’Arcy James. O desempenho de Liev Schreiber é o mais bizarro, com uma personagem rígida que tenta não ser invasiva, mas que acaba por nos roubar a atenção cada vez que surge.


Spotlight ousa abordar um tema peculiar, evocando sentimentos de tristeza, desgosto, confusão, raiva e arrependimento. Ao longo dos anos, vários foram os documentários focados no escândalo de abuso sexual da Igreja Católica, mas Thomas McCarthy decide agora examinar o assunto incidindo sobre os esforços de uma pequena equipa de jornalistas focada numa teia de conspiração. É um filme que tinha o direito de ser inteiramente sisudo e deprimente, mas que se torna no oposto.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Passatempo Como Ser Solteira

Estreias 4 Fev'16: Carol, The Hateful Eight, The Finest Hours, Alvin & The Chipmunks 4

Dia 4 de Fevereiro, pode contar com as seguintes estreias numa sala de cinema perto de si:

Destaques:

  Carol (Carol)
Ano: 2015
Realização:
Argumento:
Género: Drama
Elenco: ,
Nova Iorque (EUA), década de 1950. A jovem Therese Belivet sobrevive com um emprego na secção de brinquedos de um grande armazém ao mesmo tempo que sonha com uma carreira como fotógrafa profissional. Um dia, conhece Carol Aird, uma mulher sofisticada de cabelos loiros e casaco de vison que ali chega para comprar um presente de Natal para a filha. Therese anota o endereço de envio do brinquedo e, num impulso, escreve um cartão de felicitações. Carol, que está a viver um momento conturbado e que se encontra à beira do divórcio com Harge, o marido, responde. Mais tarde, as duas encontram-se e tornam-se amigas. Com o tempo, a ligação torna-se mais íntima, e a amizade converte-se em paixão. Mas quando a relação se torna evidente, o marido de Carol retalia pondo em causa a sua competência enquanto mãe e exigindo a guarda total da filha de ambos. É então que Carol, desesperada, desafia Therese a fazer uma longa viagem pelos EUA… Nomeado para seis Óscares da Academia (entre os quais Melhor Actriz, Melhor Actriz Secundária e Melhor Argumento Adaptado), uma história dramática realizada por Todd Haynes (“Velvet Goldmine”, “Longe do Paraíso”, “I'm Not There – Não Estou Aí” ou, mais recentemente, a série televisiva “Mildred Pierce”). O argumento, da autoria de Phyllis Nagy, baseia-se na obra “O Preço do Sal”, da escritora norte-americana Patricia Highsmith. Cate Blanchett, Rooney Mara, Sarah Paulson e Kyle Chandler dão vida às personagens.

Outras sugestões:

Os Oito Odiados (The Hateful Eight)

Ano: 2015
Realização:
Argumento:
Género: Acção, Western
Elenco:  , , , , , , , ,

Wyoming (EUA), alguns anos após a Guerra Civil Americana (1861-1865). Oito estranhos encontram-se abrigados numa estalagem nas montanhas devido a uma terrível tempestade de neve. Aos poucos, os oito viajantes começam a descobrir os segredos sangrentos uns dos outros, levando a um confronto inevitável.  Oitava incursão em cinema de Quentin Tarantino (o aclamado realizador de“Cães Danados”, “Jackie Brown”, “Kill Bill - A Vingança (vol. 1 e 2)”, “Sacanas Sem Lei”, “Django Libertado”), um “western” sangrento protagonizado por Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Channing Tatum, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Demián Bichir, Tim Roth, Michael Madsene e Bruce Dern, que reúne temas como a traição e a mentira, recorrentes no trabalho do realizador.


Horas Decisivas (The Finest Hours)

Ano: 2016
Realização:
Argumento:  , , Eric Johnson
Género: Drama, Thriller
Elenco: , ,
Fevereiro de 1952. Uma tempestade de enormes proporções atingiu Nova Inglaterra, no Nordeste dos EUA. O “SS Pendleton”, um petroleiro T-2 com destino a Boston, com mais de 30 marinheiros dentro, é literalmente partido ao meio. Quando a notícia chega à estação da Guarda Costeira, em Chatham, Massachusetts, o subtenente Daniel Cluff ordena uma arriscada operação de resgate. Apesar de todas as dificuldades e da consciência do enorme risco para as suas vidas, quatro homens entram num pequeno barco salva-vidas e enfrentam o mar, salvando-os de uma morte certa. Realizado por Craig Gillespie (“Noite de Medo”, “O Rapaz do Milhão de Dólares”) segundo um argumento de Eric Johnson, Scott Silver e Paul Tamasy, um filme dramático que adapta ao grande ecrã a história verídica relatada no livro “The Finest Hours: The True Story of the U.S. Coast Guard's Most Daring Sea Rescue”, escrito por Michael J. Tougias e Casey Sherman. Chris Pine, Ben Foster, Eric Bana, Rachel Brosnahan, Kyle Gallner, Holliday Grainger e Casey Affleck, entre outros, dão vida às personagens.

Alvin e os Esquilos: A Grande Aventura (Alvin & The Chipmunks: The Road Chip)

Ano: 2015
Realização:
Argumento: Randi Mayem Singer, Adam Sztykiel
Género: Animação, Comédia
Elenco:  , ,

Depois de, nos outros três filmes, Alvin, Simon e Theodore (vozes de Justin Long, Matthew Gray Gubler e Jesse McCartney) conseguirem escapar de todas as tropelias em que se meteram, vivem felizes na companhia de Dave Seville (Jason Lee), o seu guardião e amigo. Tudo lhes corre de feição. Até que, sem que pudessem esperar, Dave lhes apresenta Samantha (Kimberly Williams-Paisley), a mulher por quem se apaixonou e com quem parece querer partilhar o resto da sua vida. Agora, crentes de que vão ser abandonados por aquele que se habituaram a considerar como um verdadeiro pai, os três esquilos unem-se num objectivo comum: impedir que a relação entre eles avance para o inevitável pedido de casamento. Mas, tal como seria de esperar, os pequenos apenas se vão meter em enormes sarilhos… Realizado por Walt Becker ("2 Amas de Gravata"), esta é a quarta aventura dos famosos esquilos que fizeram as delícias daqueles que foram crianças durante a década de 1980.
Sinopses: Cinecartaz Público

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Poster e teaser trailer de "Julieta", de Pedro Almodóvar


Além do teaser trailer, foi revelado recentemente o novo poster de Julieta, novo filme do cineasta espanhol Pedro Almodóvar.


Três anos depois de Los amantes pasajeros, o realizador regressa com a história da tumultuosa vida de Julieta (Adriana Ugarte e Emma Suárez), ao longo de trinta anos, entre 1985 e 2015. Ao elenco juntam-se Rossy de Palma (Kika), Michelle Jenner (Isabel), Inma Cuesta (Blancanieves), Darío Grandinetti (Hable con ella), entre outros.

O filme esteve para chamar-se Silencio, mas devido ao lançamento do último filme de Martin Scorsese, Silence, (cuja agenda de promoção acabará por se cruzar), o título acabou por ser alterado para Julieta. Em Portugal, deverá estrear a 21 de Abril.