sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O Salão de Jimmy, por Carlos Antunes



Título original: Jimmy's Hall
Realização: 
Argumento: 
Elenco: 


As incursões de Ken Loach aos filmes de época não lhe são favoráveis, como aliás não lhe são favoráveis quaisquer desvios ao Realismo Social que ajudavam a catalogar os seus melhores filmes.
O contexto de Jimmy's Hall fará pensar de imediato em The Wind That Shakes the Barley, filme cujo único elogio que merecia era o da beleza dos planos.
Recordando somente os filmes de Loach que estrearam entre nós desde essa altura percee-se exactamente o quanto o seu interesse depende da fidelidade às questões sociais.
A par do do desinteresse do filme que lhe valeu uma Palma de Ouro, também o caos irreparável de Route Irish deixou muito a desejar.
Muito melhores são os seus filmes que agora quase se podem dizer "menores" - porque menos exigentes ao nível da produção - como A Parte dos Anjos e, especialmente, O Meu Amigo Eric.
O filme que agora estreia entre nós, como já deverão ter percebido, está no primeiro grupo, não por acaso todos comprometidos primariamente com um despertar de consciência Irlandesa em estruturas demasiado ousadas.
Ao invés de, como os melhores filmes, serem histórias muito simples ou de contornos quase patéticos onde o foco se cola aos personagens e não a uma grande ideia que o filme representa.
Por mais que se anuncie no início do filme que Jimmy's Hall se inspira na vida de Jimmy Gralton, esse não chega a ser uma personagem, apenas um conjunto de conceitos pouco integrados com o pano de fundo.
Fosse o filme como o seu título prenunciava, a história de um espaço concebido para o povo, então faria sentido que o activista representasse também o ideário por detrás do salão.
Só que o filme vacila entre os traços gerais da História e os traços individuais da vida daquele homem. Com os segundos a não influenciarem os primeiros de forma significativa.
O amor perdido e a militância comunista daquele homem não afirmam nada assertativo sobre o que é uma vontade colectiva de criar um espaço ao serviço de uma comunidade sem outras oportunidades.
Manter a narrativa tão colada a Jimmy impede que se chegue a interrogar o impacto daquele local nos anseios da população - e na população jovem sem trabalho nem perspectivas de futuro - e nas acções de reivindicação que viessem a ter no futuro.
Quando os jovens o abordam a pedir o regresso do salão eles fazem-no dando grande enfoque aos bailes. Bailes que não estejam sob domínio da Igreja e que lhes permita maior intimidade.
Um desejo de liberdade ou um desejo adolescente? Uma confusão dos dois como motivação dos jovens ou o confronto das duas ideias entre os adultos (professores) e os seus alunos?
O argumento não tem vontade ou coragem para mais do que debitar ideias simpáticas acerca daquele povo oprimido e prefere sempre o esquematismo dos eventos de uma vida individual à complexidade de uma vida comunitária.
Estando o realizado mais focado em colcoar-se ao serviço de si mesmo - e da opinião que dele se faz - as limitações do argumento não parecem colocar-lhe problemas.
Creio que o problema de Ken Loach ao trabalhar histórias fora do âmbito restrito do Realismo Social é o facto de abordar o filme para mostrar que tem capacidades técnicas que fazem dele um "Realizador" e não apenas um realizador daquele género que passa por pouco aprimorado ao importar-se mais com elementos não visuais.
Tem-las mas usa-as de forma pouco precisa ou mesmo indevida.
A cena Hollywoodesca da dança entre os dois "quase amantes" neste filme, ilumidada por uma Lua de intensidade excessiva, é bela mas não pertence a este filme.
Evoque-se o caso de um seu par, Mike Leigh, para se ver que quando este se dedicou a um filme de época - Vera Drake, já que a genial teatralidade de Topsy-Turvy é um caso à parte - ele não abdicou da sua matriz, transpô-la para os anos de 1950 com os belíssimos resultados que se conhecem.
Ken Loach nem sempre abordou assim filmes como este, mas parece ter sofrido uma regressão enquanto autor que o leva às limitações de abordagem que agora vemos.
Não sendo desprezável, Jimmy's Hall também não afirma qualquer pertinência para que seja visto fora do país a que diz respeito.




"The Searchers" regressa aos cinemas portugueses a 28 de Agosto


Depois da reposição de Vertigo (1958) e Psycho (1960), a Midas Filmes irá repor nos cinemas portugueses o clássico The Searchers (1956), de John Ford. A reposição dar-se-á a 28 de Agosto, numa cópia digital restaurada, aproveitando também a abertura do Cinema Ideal, em Lisboa.

Eleito como o sétimo melhor filme de todos os tempos pela revista Sight and Sound, o western segue a história do ex-soldado Ethan (John Wayne, na sua décima segunda colaboração com John Ford), que procura durante cinco anos a sobrinha Debbie (Natalie Wood), raptada pelos Comanches. Ethan não sucumbirá a nada para devolver Debbie a casa e à cunhada Martha (Dorothy Jordan).

Estreias 21 Ago'14: Jimmy's Hall, Lucy, Earth to Echo, Bekas e Les gamins

Dia 21 de Agosto, pode contar com as seguintes estreias numa sala de cinema perto de si:

Destaques:

  O Salão de Jimmy (Jimmy's Hall)
Ano: 2014
Realização:
Argumento:
Género: Drama, Histórico
Elenco: , ,
Década de 1930. Após dez anos emigrado nos EUA, onde obteve a cidadania, o irlandês Jimmy Gralton regressa a Leitrim, sua terra natal. O país, anos depois da terrível Guerra Civil, respira esperança e promessas de mudança. Autodidacta e de personalidade carismática, Jimmy quer dedicar a sua vida à família e à comunidade que o viu nascer. Assim, depressa cede às pressões dos jovens da zona e abre o seu salão de baile, um lugar onde todos são bem-vindos e onde é possível dançar, estudar e debater ideias livremente. O sucesso é instantâneo, mas a sua influência sobre a população trabalhadora não tarda a ser encarada como uma ameaça pelos membros da Igreja Católica e pelos latifundiários da zona, que o vêem como dissidente. Com realização do aclamado Ken Loach ("Brisa de Mudança", Palma de Ouro em Cannes em 2006), segundo um argumento de Paul Laverty, seu colaborador habitual, um filme que adapta uma peça de Donal O'Kelly. A história retrata a verdadeira luta de James Gralton (1886-1945), figura-chave do Grupo de Trabalhadores Revolucionários que deu origem ao actual Partido Comunista Irlandês. Apresentado em 2014 no Festival de Cinema de Cannes, o filme conta com Barry Ward, Simone Kirby e Andrew Scott nos principais papéis.
Outras sugestões:

Lucy (Lucy)

Ano: 2014
Realização: 
Argumento: 
Género: Acção, Ficção-Científica
Elenco: , ,
Lucy é uma jovem norte-americana a estudar na cidade de Taipé, capital de Taiwan. Um dia, é forçada a transportar uma droga sintética chamada CPH4, que terá de carregar dentro do próprio corpo numa viagem à Europa. Quando é apanhada e violentamente agredida, rompe-se o saco de estupefacientes que estava dentro de si e a droga é lentamente assimilada pelo seu organismo. Como resultado, Lucy começa a sentir uma série de efeitos físicos e mentais que se revelam poderes sobre-humanos: força, telecinesia, ausência de dor e uma excepcional capacidade de absorver conhecimentos de todo o género. Quando se consegue livrar dos captores e regressa ao seu apartamento, Lucy, transformada numa verdadeira máquina de matar, tem apenas uma coisa em mente: encontrar uma forma de parar os efeitos e salvar a sua vida. É então que, numa pesquisa pela internet, se depara com o nome de Samuel Norman, um professor universitário que dedicou a sua carreira a investigar todos os processos executados pelo cérebro humano. Segundo os seus estudos, uma pessoa normal usa apenas 10% da total capacidade cerebral, sendo os outros 90% um mundo desconhecido de competências por explorar. Compreendendo que toda a esperança reside no trabalho de Dr. Norman, Lucy sabe que não tem alternativa senão confiar nele. É assim que, entre os dois, se inicia uma parceria que os levará mais longe do que alguma vez poderiam imaginar, muito para além de toda a racionalidade… Um "thriller" de ficção científica escrito e realizado pelo francês Luc Besson ("Vertigem Azul", "Nikita - Dura de Matar", "O 5.º Elemento"), com Scarlett Johansson e Morgan Freeman como protagonistas.

  Terra Chama Echo (Earth to Echo)
Ano: 2014
Realização:
Argumento: Henry Gayden
Género: Família, Aventura
Elenco: , ,
Tuck, Munch, Alex e Emma (Astro, Reese Hartwig, Teo Halm e Ella Wahlestedt) cresceram juntos num pacato bairro norte-americano. Porém, em breve terão de se despedir, pois um projeto de construção de uma auto-estrada irá destruir aquele lugar, forçando as famílias a refazerem as suas vidas em vários pontos do país. Poucos dias antes do grande adeus, um misterioso sinal aparece nos telemóveis dos adolescentes, representando um mapa. Convencidos de que algo de extraordinário está a acontecer e querendo viver uma última aventura, os quatro juntam-se para tentar perceber a origem daquelas mensagens. Porém, nada os poderia preparar para o que iriam descobrir: um pequeno ser extraterrestre preso na Terra, que é perseguido pelas autoridades governamentais e apenas deseja regressar a casa. Este será o início de uma aventura muito especial que irá colocar a sua amizade em risco e mudará, para sempre, as suas vidas… Um filme de ficção científica em estilo de "found footage", com Dave Green na realização, sobre a descoberta da adolescência e a força da amizade.

 Bekas e o Sonho Americano (Bekas)


Ano: 2014
Realização:
Argumento: 
Género: Drama
Elenco: , ,
Zana e Dana, de sete e nove anos, respectivamente, são dois irmãos a viver no Curdistão iraquiano, em 1990. Órfãos de pai e mãe, que morreram na guerra de Saddam Hussein, sobrevivem nas ruas, aos cuidados um do outro. Um dia, quando se introduzem em segredo num cinema local, descobrem a existência de uma personagem que julgam ser a solução para todos os seus problemas: o Super-Homem. Desejosos de conhecer de perto o homem mais forte e justo de que alguma vez ouviram falar – e sem nada que os prenda àquele lugar devastado –, decidem pegar em Michael Jackson, a sua velha mula, e seguir viagem rumo à América. O objectivo parece-lhes simples e sem grande margem para erro. Enquanto Zana faz a lista de pessoas que o super-herói terá de castigar em seu nome, Dana apenas tem de se certificar que chegam vivos ao outro lado do mundo. Escrita e dirigida pelo jovem realizador curdo Karzan Kader, uma comédia dramática que usa o humor para fazer uma reflexão sobre a guerra sob o ponto de vista de duas crianças.

Os Putos (Les gamins)

Ano: 2013
Género: Comédia
Elenco: , ,
Thomas e Lola são jovens, estão apaixonados e pretendem dar o nó. Mas tudo se altera quando ela tem a infeliz ideia de o apresentar aos pais. Gilbert, o pai dela, em plena crise de meia-idade, considera que o casamento foi o pior erro que cometeu na vida. Por esse motivo, tenta convencer o futuro genro a desistir de Lola antes que seja demasiado tarde. Estes dois novos amigos iniciam-se então nos prazeres da solteirice, confiantes de que a felicidade reside na independência e que nada – nem ninguém – os poderá fazer mudar de ideias. Mas até que ponto esse contentamento momentâneo não os afastará, definitivamente, da felicidade verdadeira? Uma comédia de costumes, realizada por Anthony Marciano, que conta com Alain Chabat, Max Boublil, Sandrine Kiberlain e Mélanie Bernier à frente do elenco.
Sinopses: Cinecartaz Público

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Lucy, por Carlos Antunes



Título original: Lucy
Realização: Luc Besson
Argumento: Luc Besson
Elenco: Scarlett Johansson, Morgan Freeman, Min-sik Choi


A meio caminho entre Crank e Transcendence, Lucy é melhor do que ambos mas pior do que se exigia.
A classe - a maior parte dela concentrada em Scarlett Johansson, mas sobre ela há que escrever mais adiante e em detalhe - não permite com o mero entretenimento cinético (e descabelado) do filme protagonizado por Jason Statham.
Já o apurado sentido de ritmo - sinal de despretensiosismo apesar de tudo - distancia-se do aborrecidmento (pseudo-)filosófico do filme com Johnny Depp que vimos ainda este ano.
Daí a identidade desregulada de Lucy que sabe ser económico com o tempo mas que não se estrutura devidamente para a mensagem final que transmite.
Identidade pode parecer a palavra errada num filme que gera uma lista de comparações - mais uma com Limitless, por exemplo - mas não deixa de a ter embora a simpatia para com ela venha a variar muito com o grau de tolerância para o facto de um filme de acção se apresentar com um mote para a vida moderna.
Trata-se de apresentar uma heroína com mais do que gosto pela violência e vontade de sobreviver. Esta sacrifica-se pelos outros humanos apesar de procurar uma concretização pessoal que tem, do mesmo modo, que ver com vingança.
Menos razoável é fazê-lo usando a Neurociência, a Teoria da Evolução e a Física Quântica sem a devida ponderação.
A utilização dessas áreas de conhecimento como matéria de pompa para um entretenimento de execução apurada compromete a relação do público com o filme.
As liberdades de imaginação que redundam em incorrecções científicas são óbvias e, como tal, devem estar envolvidas por um mistério que se sabe ser o grau de incerteza que transforma a Ciência em especulação. Ser, de forma clara, Ficção Científica em vez de tentar criar uma Factualidade Científica duvidosa, para dizer o mínimo.
O salto em direcção ao futuro deve assumir que falhará para que o filme de acção sobreviva para lá do que tenta estabelecer como hipótese sem ressentimentos de quem se confronta com ele.
Neste caso sobreviverá porque, apesar de todos esses erros do conhecimento, o cerne do filme de acção carrega um visual de qualidade, incluindo uma das cenas de perseguição automóvel melhor executadas de há muitos anos a esta parte.
Como também sobreviverá porque conta com Scarlett Johansson a agarrá-lo ao plano da identificação pessoal com a sua interpretação que traça uma personagem num momento de evolução acelerada.
Todo o potencial de uma nova heroína de acção de sucesso passa pelo seu papel dessexuado mas não sem uma componente de afirmção feminina, por mais difícil que isso possa parecer de concretizar em simultâneo.
O distanciamento emocional que Johansson dá à sua personagem - com breves mas intensificados momentos de descarga - faz crer numa personagem apostada na eficácia (por culpa do tempo contado) com um difícil mas progressivo controlo do racciocínio sobre as emoções.
A composição faz pensar num intencional reaproveitamento das qualidades que a actriz emprestou a duas das suas personagens, Natasha Romanoff e a criatura sem nome de Under the Skin, em personagens "intermédias" e como referência mais permanente da intensidade tanto da presença como do mistério.
A componente física da sua interpretação como suporte de filmes de maior público mas a mesma estranheza no confronto com o mundo à sua volta. Ela parece não querer que se esqueça a força do trabalho que fez para Jonathan Glazer.
A composição leva mesmo pensar numa revisitação de Nikita por parte do realizador, num mundo onde a mulher já não pode ser tão frágil nem alguém aceitar a sua condição sem a questionar por força da sua identidade.
Luc Besson é o maior cultista do sentido de espectáculo do cinema à americana que, provavelmente, nem Hollywood conhece mais na redução que fez aos blockbusters.
Mas é também um realizador de talento - em muito obras por aproveitar - que no início da carreira prometia reivindicar o título de autor dentro do "cinema para o público".
Vemos aqui que, por vezes, ainda resvala para essa área de inventividade pessoal e inconformismo autoral, que apenas o seu papel como produtor contraria: os seus filmes têm de cumprir com as mesmas obrigações comerciais dos restantes realizadores que patrocina.
Aqueles exercícios de montagem em que imagens da "vida animal" ilustram o discurso de Morgan Freeman com indevida (para um filme de acção) ironia são prova disso e por não se repetirem mais adiante no filme criam uma sensação de incompletude.
A atitude revelada nessa montagem era a que deveria acompanhar todo o filme transmitindo a mensagem de que há que ter determinação em fazer algo da própria vida - considerando o progresso que temos em relação a outras espécies - sem que Lucy tivesse de o declarar no final.
Defeitos e virtudes que se equilibram - sem se anular! - num objecto que mantém uma coagente singularidade.




segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Ilo Ilo, por Carlos Antunes



Título original: Ilo Ilo
Realização: 
Argumento: 
Elenco: 


Ilo Ilo é um filme de rara atenção ao detalhe. Nas mais ignoradas decisões o filme encontra a matéria pela qual expressa as emoções e os julgamentos de umas personagens em relação às outras e até em relação à sua própria posição no mundo.
A banalidade de uma mulher limpar a tampa da sanita que o marido deixou suja ou de um homem rejeitar que seja a empregada a lavar o uniforme ganham uma relevância que assombra o público.
Um assombro nascido do reflexo que esses momentos têm no comportamento quotidiano de todos os que se sentam defronte do ecrã.
Pela particularidade da vida daquela família Anthony Chen dá-nos uma visão de uma realidade globalmente ressonante que não perde a singularidade da sua origem.
Que se passe há duas décadas atrás em Singapura, durante a maior crise financeira que afectou a Ásia, poderá ser uma coincidência significativa para o público ocidental mas ainda mais uma lição de como se terá de aprender a lidar com o presente quando ele se tornar uma memória.
O filme beneficia da ausência de uma intenção veicular relativamente a censuras morais dos comportamentos de então.
A visão discriminatória entre empregadores e empregados estabelece-se com a mesma imparcialidade da atrapalhação que os diferentes ritos religiosos causam no momento da refeição.
A realidade acontece e a reflexão que dela ou sobre ela possa ser feita não pertence ao domínio do realizador que consegue levar a sua câmara a desaparecer por completo, transformando composição (de cena) em observação.
O esquecimento da existência da separação entre público e intérpretes acontece tanto por causa do realizador como dos seu actores, cuja naturalidade não deixa de ter contornos interpretativos marcantes.
As mulheres vincando a memória da sua intervenção mais do que os homens, tal como é natural nas personalidades das suas personagens; com o pai a manter-se expressivo pelo silêncio (e pela ausência, mesmo quando está em cena); e o rapaz a desabrochar como actor em simultâneo com o desabrochar da sua personagem.
Pertence aos actores o coração do filme onde está a evolução da relação entre a criança e a sua ama. Da caprichosa rejeição inicial à dependência emocional.
Tal como à sua volta - e talvez quase tão importante - está a história de um casamento no seu momento mais difícil, do reestabelecimento dos laços entre marido e mulher, pai e mãe.
Por mais tocante que essas histórias de aproximação sejam, são também a mais significativa pecha do filme.
Elas são o contrário das observações que Chen faz dos detalhes: a expressão das histórias é uma marca da sua banalidade.
Não duvido que seja o que vemos seja uma representação realista da maioria das relações entre crianças e as suas amas.
Não evita que tal se tenha transformado num lugar-comum da ficção, surgindo aqui como uma estrutura demasiado repisada.
A falta de algo de novo a dizer sobre aquelas relações - em vez de à sua volta encontrar o singelo significativo - evidencia o esquematismo da história.
Não sendo insatisfatória também não consegue justificar o espaço central do "conflito" que lhe é concedido.
Mostra ser um suporte sólido para a construção da identidade de Anthony Chen como realizador mas uma certa debelação que sentimos das possibilidade da mesma fazem-nos crer que ele deveria ter ido mais além na agregação dos elementos diferenciadores exteriores ao núcleo familiar.
A cena em que Terry corre para ver Jialer receber o seu castigo escolar - vergastadas públicas - é uma das mais interessantes cenas e argumento em favor disso mesmo. A angústia da ama para com o seu menino a levar-nos de encontro à percepção profunda da mentalidade rígida - ditatorial? - da educação e do próprio país.
Por mais convincente que já seja a sua relação com a herança de Yasujiro Ozu, não está apurada.
Esta família é o ponto de intersecção das realidades sociais quando deveria ser o epicentro ressonante das mesmas. As particularidades sociais gravitam em torno da família mais do que se expressam nas relações internas.
Outras heranças fílmicas são menos evidentes para bem do realizador, pois estão também menos bem resolvidas.
De Abbas Kiarostami obtem o realizador a noção do espaço fechado do carro como impulsionador do diálogo - ou da confissão - mesmo que feroz.
Só que as cenas em que tal ele reproduz acontecem sem uma progressão efectiva para o momento seguinte do filme. Uma delas decorre mesmo numa condução por engano que conduz a lado nenhum senão a uma inversão de marcha e ao fim da própria cena.
São dificuldades de um primeiro filme e da construção de uma personalidade que não apagam as valorosas indicações que Anthony Chen já nos dá.




Vencedores do passatempo "O Salão de Jimmy"


Os vencedores do passatempo O Salão de Jimmy são:

Dia 19 de Agosto (Terça-feira) - Lisboa | Cinema Medeia Monumental, às 21h30
Ana Cátia Silvestre Leandro
Ariana Cristina Oliveira dos Santos
Bruno Rafael Esteves Manso Ribeiro
Carla Susana Ferreira Ribeiro
Elionora Nazaré Cardoso Pinto Santos
Fernando Manuel Ramos Soares
Filipe Alexandre Carvalho Rodrigues
Isabel Maria de Matos Teixeira Corujo
Joana Fonseca Gouveia Duarte
Lídia Carlota Macedo Seabra
Mafalda Cristina Farinha Gomes de Abreu
Nuno André Fernandes Costa
Pedro Emanuel Barradas Sardinha
Renata Maria Courelas Germano
Saúl Marques Gomes

Parabéns! Bom filme.

domingo, 17 de agosto de 2014

Tar, por Carlos Antunes



Título original: Tar


O elenco rico será a justificação para a estreia deste filme entre nós, resultado de um esforço de estudantes de cinema em torno da obra de um poeta que pouco dirá ao público português.
Elenco que é um dos primeiros empecilhos do filme. Não por falta de talento ou empenho mas por tipificação dos papéis.
Mila Kunis como feliz figura romântica encobrindo a tragédia pessoal que parece atrair apesar do seu desprendimento das coisas mundanas.
James Franco - também produtor e cada vez mais presente entre a produção "independente" actual que se torna saturante - a fazer mais uma desmonstração da sua intelectualidade numa continuação menor do seu Allen Ginsberg em Howl.
Jessica Chastain como dona de casa americana às voltas com um filho à procura de um lugar num mundo de pais ausentes e austeros.
Com Chastain a desconfortável sensação de repetição piora pois os realizadores assumem uma herança fílmica directa a Terrence Malick (limitada a The Tree of Life), numa contemplação poética da realidade.
Tal lirismo é justificado dado tratar-se de um trabalho com base na poesia de C. K. Williams que agrega muito do que é a vida quotidiana, mas os filtros de cor, o envelhecimento da imagem ou a delonga em pormenores (insignificantes) denotam uma indulgência criativa nada prometedora para trabalhos futuros - e nada agradável no actual.
Alguns momentos de beleza elevam-se sempre no seio do filme, sobretudo quando este se liberta da declamação dos poemas e aproveita as narrativas (de vida) que os compõem para estruturar o filme.
Momentos são breves e escassos no que não passa de um exercício de ilustração que deixa claro que funcionaria melhor como conjunto de pequenos segmentos mais limitados mas também mais definidos.
Os pedaços de poemas seleccionados não se combinam - ou não são estes os realizadores certos para o tentarem - num fôlego que sustente uma longa-metragem em jeito de biopic poético.
A exasperação toma conta do público ao fim de pouco, sobrando-lhe apenas o interesse pela beleza das palavras lidas.
A essas não lhes fazia falta as imagens no ecrã pois elas mesmas as transmitem com mais intensidade.




Cineasta português Pedro Costa é premiado no Festival de Locarno 2014


O cineasta português Pedro Costa venceu o Leopardo de Ouro para Melhor Realizador no Festival de Locarno 2014. O seu filme Cavalo Dinheiro foi também distinguido com o prémio FICC/IFFS (Federação Internacional de Cineclubes), ex-aequo com Mula sa Kung Ano Ang Noon. Este último, realizado pelo filipino Lav Diaz, foi galardoado com o Leopardo de Ouro para Melhor Filme.

Já o documentário Songs from the North, da realizadora Soon-Mi Yoo, foi distinguido com o prémio para Melhor Primeira Obra, tendo integrado a competição Cineasti del Presente. O filme é uma co-produção portuguesa da Rosa Filmes.

Competição Internacional
Leopardo de Ouro - Melhor Filme: Mula sa Kung Ano Ang Noon, de Lav Diaz
Prémio Especial do Júri: Listen Up Philip, de Alex Ross Perry
Melhor Realizador: Pedro Costa por Cavalo Dinheiro
Melhor Actor: Artem Bystrov em Durak
Melhor Actriz: Ariane Labed em Fidelio, l'Odyssée d'Alice
Menção Especial: Ventos de Agosto, de Gabriel Mascaro

Cineastas do Presente
Leopardo de Ouro - Prémio Nascens: Navajazo, de Ricardo Silva
Prémio Realizador Emergente: Simone Rapisarda por La Creazione di Significato
Prémio Especial do Júri Ciné+Cineastas do Presente: Los Hongos, de Oscar Ruiz Navia
Menção Especial: Un Jeune Poète, de Damien Manivel

Primeiro Filme
Melhor Primeira Obra: Songs from the North, de Soon-mi Yoo
Menção Especial: Parole de Kamikaze, de Masa Sawada

Pardi di Domani - Competição Internacional
Melhor Curta: Abandoned Goods, de Pia Borg e Edward Lawrenson
Pardino d'Argento Swiss Life: Shipwreck, de Morgan Knibbe
Menção Especial: Muerte Blanca, de Roberto Collio
Prémio Pianifica - European Film Awards: Shipwreck, de Morgan Knibbe
Prémio Film und Video Untertitelung: Hole, de Martin Edralin

Pardi di Domani - Competição Nacional
Melhor Curta: Totems, de Sarah Arnold
Pardino d'Argento Swiss Life: Petit Homme, de Jean-Guillaume Sonnier
Prémio Action Light - Revelação Suíça: Abseits der Autobahn, de Rhona Mühlebach

Piazza Grande
Prémio do Público UBS: Schweizer Helden, de Peter Luisi
Prémio Variety Piazza Grande: Marie Heurtin, de Jean-Pierre Améris

Júri Independente
Prémio Ecuménino: Durak, de Yury Bykov
Prémio FIPRESCI: Mula sa Kung Ano Ang Noon, de Lav Diaz
Europa Cinemas Label: Fidelio, l'Odyssée d'Alice, de Lucie Borleteau
Prémio Júri Jovem - #1: Durak, de Yury Bykov
Prémio Júri Jovem - #2: Alive, de Jung-bum Park
Prémio Júri Jovem - #3: Perfidia, de Bonifacio Angius
Prémio L'ambiente è Qualità di Vita: Mula sa Kung Ano Ang Noon, de Lav Diaz
Menção Especial: L'Abri, de Fernand Melgar
Prémio Júri Jovem - Melhor Filme Cineasti del Present: Frère et Soeur, de Daniel Touati
Menção Especial: Buzzard, de Joel Potrykus
Prémio Júri Jovem - Melhor Curta Internacional: Sleeping Giant, de Andrew Cividino
Prémio Júri Jovem - Melhor Curta Suíça: Abseits der Autobahn, de Rhona Mühlebach
Menção Especial: Matka Ziemia, de Piotr Zlotorowicz
Prémio FICC/IFFS: Mula sa Kung Ano Ang Noon, de Lav Diaz & Cavalo Dinheiro, de Pedro Costa
Menção Especial: Durak, de Yury Bykov
Prémio SRG SSR - Semana da Crítica: 15 Corners of the World, de Zuzanna Solakiewicz & La Mort du Dieu Serpent, de Damien Froidevaux
Prémio Zonta Club Locarno - Semana da Crítica: La Mort du Dieu Serpent, de Damien Froidevaux

sábado, 16 de agosto de 2014

Os Mercenários 3, por Carlos Antunes



Título original: The Expendables 3
Realização: 


Trata-se de um absurdo que um filme como The Expendables 3, um filme "de tiros" sem história para mais de uma linha, tenha mais de duas horas de duração.
Ao terceiro filme o que era para ter sido uma temporária reunião revivalista com alguma auto-consciência e ironia (sobretudo no segundo filme) passou a um conjunto de filmes que se começam a levar a sério.
Tão a sério que já vimos Stallone e Schwarzenegger regressarem a solo em filmes de acção para os quais, realmente, já não têm idade - mesmo que se mantenham em forma, a nossa noção dos anos que passaram custam-lhes a credibilidade.
Vemos isso também neste filme em que os duplos de Wesley Snipes e Antonio Banderas surgem - muito mal disfarçados - a fazer acrobacias e Parkour.
Não há nenhum efeito de ilusão criado nesses momentos e a única conclusão é que estamos perante um filme de acção igual a tantos outros mas em que os protagonistas não podem fazer-nos fingir acreditar no que vemos.
Fossem essas cenas interessantes e poderíamos tolerar a incredibilidade plenos de adrenalina machista - há uma personagem feminina entre os Mercenários que pouco conta - acumulada há 30 anos. Não o são.
Depois de ter realizado o primeiro destes filmes, Sylvester Stallone deu o comando do segundo filme a um realizador com algum talento - Simon West, vindo de The Mechanic, mas que curiosamente não se reergueu desde servir esta "saga" - para agora chamar um Patrick Hughes que não parece ter olho para este género, nem uma amostra cinematográfica que justifique a escolha.
Aborrecidas e limitadas, assim são as cenas de acção na mão deste realizador que deixa a clara impressão de que se deve ter medo por o remake the The Raid já estar a si atribuído.
Seria até simples tornar o filme um pouco menos mau deixando-o ser um pouco mais escorreito, uma forma de aumentar a tolerância do público se não o seu apreço.
Bastaria ter cortado todo aquele ridículo bloco durante o qual Stallone se dedica a juntar uma equipa de miúdos para o assistir depois de ter afastado os seus velhos parceiros porque não quer ser responsável pelas suas mortes.
O tempo perdido aí, para que eles acabem raptados pouco depois e os velhos tenham de os ir salvar, torna tudo intolerável porque nem sequer são os protagonistas esperados a receberem tempo de ecrã e amedontra-nos com a ideia de que Stallone esteve a lançar as bases de um grupo mais novo que poderá prolongar este título indefinidamente.
Das novas chamadas entre os velhos actores há pouco a dizer. Banderas tem um ou outro momento de graça degladiando a memória de Zorro. Snipes recuperado depois de três anos de prisão merecia um pouco mais por ser melhor do que a maioria. Ford faz uma perninha, pouco mais do que um cameo, sem falas realmente interessantes.
Sobra Mel Gibson, dos poucos com verdadeiro talento e com tempo para o mostrar. Ou melhor, para transformar uma caricatura num vilão.
Tal como Snipes teve o seu momento negro mas para o ver fazer o que faz aqui sem nenhuma esforço vale a pena apagar a memória dos seus problemas.
Só que Mel Gibson está no meio de um mar (de chamas?) de conveniência, previsibilidade, clichés e ridículo.
Tendo sido dos menos tolerantes com o regresso de Stallone e uma série de parceiros que escolheu, não deixei de  - por motivos mais ou menos casuais - de acompanhar o progesso de The Expendables para The Expendables 2.
Espero que este terceiro segmento deste cinema de acção para reformados seja o ponto final neste revivalismo, mas será certamente o último a que eu darei atenção - e julgo que também assim será com a generalidade do público.




sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O Centenário Que Fugiu Pela Janela e Desapareceu, por Carlos Antunes



Título original: Hundraåringen som klev ut genom fönstret och försvann
Realização: 
Argumento: Felix HerngrenHans Ingemansson
Elenco: 


Não sendo uma comédia que atinja patamares de elevada qualidade, é caso para se transformar num fenómeno de apreço fácil.
Um filme a merecer uma atenção redobrada por surgir como um oásis de originalidade no meio do padrão de estreias de filmes do género.
Esta é uma road trip de criminosos nascidos por engano em jeito de comédia negra onde quão mais absurdas as mortes melhor.
Acontece sempre com uma energia caótica que faz lembrar muitos dos melhores momentos de Emir Kusturica.
Só que a história de Allan Karlsson tem também tempo para uma viagem ao passado onde essa energia se estende a um percurso pelo lado mais obscuro da História em que o centenário se mostra um verdadeiro Forrest Gump predestinado ao falhanço que se torna sucesso de forma sempre imprevisível.
O filme demonstra que a História é uma farsa e que a história dos seus indivíduos é um ainda maior absurdo.
Um absurdo onde se cruzam um elefante, o irmão pateta de Einstein, 50 Milhões de Coroas, um gangue de motoqueiros, a bomba atómica, o General Franco, largas quantidades de vodka e ainda maiores quantidades de explosivos.
Entre uma série ainda maior de personagens históricas, o homem com três anos de estudos e um gosto anormal por explosivos vai aceitando a vida tal como ela é, sem se questionar acerca dos preconceitos e moralismos alheios.
A sátira intensa à realidade política do mundo ao longo do século XX faz pensar em Karlsson como uma versão bizarra do Chance de Peter Sellers.
Estamos perante uma verdadeira aventura onde a impossibilidade está muita vezes à espreita mas da qual o filme consegue ir afastando-se - e, com isso, prender o público - porque assume o seu aburdo como objectivo máximo em todos os momentos.
O público está sempre a ser levado aos limites do que parece disposto a aceitar do filme e a ser rechamado para ele, não sem que um afecto pelos personagem principal cresça até ao final.
O que também ajuda a que o cómico Robert Gustafsson fique na retina "safando" um personagem que poderia acabar no ridículo, sobretudo nas cenas da sua terceira idade.
De acordo com este filme, a vida é uma aventura, mesmo quando está prestes a acabar. Talvez até mais quando está prestes a acabar e nada mais há porque a adiar.
Como diz Allan quando o ameçam de morte, "É melhor despachar-se, já tenho 100 anos e não duro muito mais.".
Assim deve o público despachar-se a ir ao encontro deste filme, fresco porque arrisca várias vezes o falhanço - grandioso - para se safar com mais uma gargalhada.




quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O Guardião das Causas Perdidas, por Carlos Antunes



Título original: Kvinden i buret
Realização: 
Argumento: 
Elenco: 


A aposta Dinamarquesa de longo prazo no seu próprio cinema tem produzido uma mescla de resultados de elevada qualidade lado a lado com outros de apelo público mas de resultados dúbios - e falo muito claramente de Susanne Bier.
Todos esses filmes são sempre de qualidade técnica acima da média e este O Guardião das Causas Perdidas não é excepção, proporcionando uma experiência cinematográfica agradável.
A fotografia exemplar cria o ambiente mais propício a esta história. A realização prima pela eficácia que não compromete.
Ao mesmo tempo isso significa também que falta alguma centelha ao filme. A aposta na técnica acaba por levar a que filmes como este não sejam mais do que competentes e eficazes - o tal "agradável" e nada mais.
A fotografia parece demasiado apurada, por vezes retirando a vida ao cenário. A realização não corre riscos e, portanto, não há nada de particularmente excitante.
Acima dessa qualidade média só a interpretação de Nikolaj Lie Kaas, desde logo com um perfil talhado para o papel de detective marcado pela vida e pelos muitos casos.
Um detective à moda dos dos clássicos noir americanos. Um detective solitário, com quem ninguém quer emparelhar, mas que pelo trabalho é capaz de ir criando uma relação com outro desalinhado da Polícia.
A seu lado Fares Fares parece igualmente uma excelente escolha e um actor a seguir com atenção. Não recebe uma composição equivalente, reduzido a traços esquemáticos.
Na verdade, traços ainda mais esquemáticos do que aqueles com que o argumento serve todos os personagens. O argumento é mesmo o elemento do filme cuja eficácia é insuficiente.
O argumento prima pelo cumprimento de todas as regras estabelecidas. Só que cumprindo os passos expectáveis acaba por recorrer a um conjunto significativo de clichés.
Os que definem o detective e o seu parceiro e, igualmente, aqueles que servem as cenas cujo género não é exclusivamente o do drama policial.
O argumento faz do filme um policial "directo ao ponto", apagando um pouco o contexto social pelo qual primam muitos dos policiais nórdicos.
Há alguma conveniência na forma como as pistas adormecidas há vários anos surgem velozmente e até o controlo sobre os flashbacks que se ligam à investigação corrente parece estar mais ao serviço da finalização da história e não do estabelecimento das motivações dos personagens.
Este é um caso em que o filme beneficiaria mesma da calma de uma meia hora a mais, sobretudo para servir a construção da relação entre os dois investigadores.
Que essa seja capaz de se formar e convencer o público - que não deixará de esperar os próximos filmes da saga - é a prova da tal qualidade geral que os filmes dinamarqueses mostram.
Esperemos que continuem a estrear por cá. E que tenham público suficiente para justificar isso mesmo!




quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Sex Tape - O Nosso Vídeo Proibido, por Carlos Antunes



Título original: Sex Tape
Realização: 
Argumento: Kate AngeloJason SegelNicholas Stoller
Elenco: 


Desapontante.
Um filme cuja premissa é o sexo e que se atreve a citar a iconografia de Boogie Nights ser tão púdico e tão banal.
Era perfeitamente possível ter feito este filme a partir de um email insultuoso enviado por engano e quase nada tinha de mudar.
O sexo é apenas uma forma de chamar a atenção para o que não deixa de ser uma versão mais da recuperação de um casamento pela via da aventura mais absurda possível.
Um filme que, apesar de ser sobre sexo, se dedica a repisar todos os clichés que já se esperavam estar a ser superados: os filhos acabam com o sexo no casamento e as pessoas julgam que precisam de recorrer à extravagância para recuperar a chama que tinham no passado.
O mais perto que se está de haver humor sobre como o sexo é visto no tempo presente é na aparição de Jack Black como dono do YouPorn e a sua citação interminável e quase chocante dos seus rivais.
Infelizmente essa cena não termina sem um discurso moralista sobre a vida de casado, destruindo o pouco efeito conseguido aí.
Os argumentistas esqueceram-se por completo de incluir humor a sério, algo mais do que situações exageradas dependentes de gags físicos esgotados - Jason Segel contra um cão como um dos mais óbvios.
O mais perto que eles estão de alguma ironia é ao chamarem Rob Lowe para interpretar o papel de um bom pai de família que em segredo se dedica a Heavy Metal e linhas de cocaína. Afinal o actor é o pai dos escândalos com sex tapes e foi isso que o levou a abandonar a droga.
Mas eles não sabem o que mais fazer além de associarem o actor ao papel, confiando que a memória do público (ou parte dele) será suficiente.
Não ajuda em nada que Jake Kasdan, realizador de duas excelente comédias como são Zero Effect e Walk Hard: The Dewey Cox Story, continue por um caminho descendente que para já não vai terminar pois parece que vai continuar o seu (pouco) esforço de Bad Teacher.
Não há qualquer ideia com um toque de originalidade ou de risco neste trabalho de Kasdan. Muito menos qualquer vestígio de uma cena capaz de combinar verdadeiro erotismo à comédia - algo que, apesar de tudo, tinha mostrado saber fazer nos seus filmes mais recentes.
Essa falha em particular, mas a geral falta de ideias de comédia próprias torna-se inegável quando, ao jeito de The Hangover, os protagonistas vão ver a sex tape que perseguiram o filme todo. Nesse momento que poderia ser de libertação total, o vídeo é passado em fast forward e depois chega o fim do filme.
Contra este vazio os dois protagonistas, actores que parecem entre os mais propícios a liderar com uma dose de bom humor uma comédia atrevida como esta deveria ter sido, pouco podem fazer.
Não lhes foi realmente dado um papel a partir do qual pudessem criar um pouco de humor nascido dos actores e passado para as suas personagens. Nem sequer para si próprio, enquanto actor, o Jason Segel argumentista foi bom.
Um filme que por um momento até promete algo mais, com Cameron Diaz a ser uma mãe dos subúrbios desbocada - porque saudosa - acerca da sua antiga vida sexual.
Desapontante. E muito!




Comentários recentes no blogue

Powered by Disqus

Receive all updates via Facebook. Just Click the Like Button Below

?

You Can also Receive Free Email Updates:

Powered By NBT